A literatura mística feminina e a escrita da História na Baixa Idade Média ocidental

Entre biografia, memória e relato social

Palavras-chave: Historiografia, História medieval, Hagiografia

Resumo

Michel de Certeau classifica a linguagem mística como “fábula”, isto é, como algo que precisa ser dito e que constitui uma forma especial de enunciação da experiência histórica; como enunciação, a mística constitui uma “prática de escrita” que pretende redefinir os limites do dizível, do real e do verdadeiro; durante a Idade Média, a escrita mística feminina inseriu as mulheres no campo da historiografia, até então marcadamente masculina, pela qual fabricaram uma linguagem específica de enunciação da vida interior que se apresenta sob a forma de narrativas biográficas. Neste texto, serão estudadas Li Vida de la Benaurada Sancta Doucelina eIl Memoriale di Angela da Foligno produzidas por mulheres da Baixa Idade Média desde a perspectiva da narrativa de memória para entender se e como a linguagem mística engendra novas formas de narrar a história e se essas formas indicam novos caminhos para entendermos as noções de objetividade, subjetividade e alteridade na história e na historiografia ocidental.

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Biografia do Autor

André Luis Pereira Miatello, Universidade Federal de Minas Gerais
Departamento de História da FAFICH/UFMG e professor permanente do Programa de Pós-graduação em História da UFMG

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Publicado
2020-07-21
Como Citar
MIATELLO, A. L. P. A literatura mística feminina e a escrita da História na Baixa Idade Média ocidental: Entre biografia, memória e relato social. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, v. 13, n. 33, p. 163-195, 21 jul. 2020.
Seção
Dossiê: História da Historiografia Medieval: Novas Abordagens