Chamada do Dossiê: História como (In)disciplina (prazo encerrado)

2020-05-18

Chamada do Dossiê: História como (In)disciplina

Coordenadores:

Alexandre de Sá Avelar (Universidade Federal de Uberlândia)

Lidiane Soares Rodrigues (Universidade Federal de São Carlos)

Maria Ines Mudrovcic (Universidad Nacional de Comahue – Argentina)

 

Início do recebimento de artigos: 18 de maio de 2020

Data limite para envio de artigos: 31 de agosto de 2020 (prazo prorrogado)

 

Tornou-se, nos últimos anos, a historiografia mais “disciplinar” uma vez que seus agentes tenham voltado suas práticas à adequação do regramento compartilhado entre os pares? Ou ela tornou-se mais “indisciplinar” (ou inter, trans), na medida em que multiplicou seus diálogos com áreas vizinhas e passou a questionar os seus protocolos internos de validação? Com esta indagação em vista, gostaríamos de convidar pesquisadores a submeterem seus trabalhos para o dossiê “História como (In)disciplina”, a ser publicado pela Revista História da Historiografia. Entende-se os processos de estabelecimento de regras disciplinares e os de sua deliberada negação como dois lados de uma mesma moeda. Pretende-se, portanto, reunir textos que tratem tanto do processo de “disciplinarização” – hodierno ou pretérito – quanto dos processos contrários ou reversos a ela. Alguns eixos são sugeridos:

- Controvérsias a respeito da definição legítima da disciplina de História.

- Modelos de proeza intelectual e controvérsias a respeito da definição legítima das práticas da disciplina.

- Estudos de caso com foco em conversões disciplinares (seja de juristas, jornalistas, cientistas sociais que se tornam historiadores, como de historiadores que se convertem a outras áreas).

- Estudos de caso com foco em conversões políticas e profissionais (seja de militantes que se tornam scholars, ou de scholars que se tornem militantes, midiáticos, etc).

- Análises de colaboração entre disciplinas (inserção dos historiadores em centros multidisciplinares de pesquisa social, arranjos interdisciplinares, multidisciplinares, transdisciplinares).

- Análises de rivalidades entre disciplinas (conflitos em torno de teses e perspectivas, disputas por temas).

 

            As transformações globais sofridas pelos sistemas de ensino nas últimas décadas alteraram a dinâmica da produção intelectual em diversas disciplinas acadêmicas. Por um lado, verificou-se o crescimento numérico das instituições de ensino superior e de sua clientela, instado por políticas de acesso de democratização e por insumos materiais de diversas ordens (programas de permanência estudantil, bolsas e financiamentos variados aos pesquisadores); por outro, e sem precedentes, os influxos materiais foram acompanhados de um crescente regramento e da intensificação das avaliações das performances institucionais e profissionais. O processo deu origem a numerosos conflitos que giram em torno de concepções rivais a respeito do que seja o modelo ideal de proeza e produção intelectual.

            No que diz respeito à História, não foi diferente. Entretanto, as particularidades que a caracterizam como área implicam modos distintos de gerenciar estes processos de expansão, regramento e avaliação da atividade. Sobejamente conhecidas, estas peculiaridades podem ser enumeradas:  área que pende ao ensino (destino da maioria dos formados); mais antiga que outras disciplinas modernas (como ciência política, por exemplo); com uma cultura disciplinar induzindo práticas (como escrita solitária, em oposição à tendência de escrever coletivamente); maior abertura aos aportes teóricos e conceituais de outros campos (traduzindo-se, em anos recentes, nos diversos “giros” pelos quais passou), dentre outras.

Não foi casual que, precisamente nestes anos, uma área reflexiva por excelência tenha crescido com tamanha rapidez e que as pesquisas neste segmento tenham passado a atentar para dimensões da prática historiográfica até então negligenciadas. No caso brasileiro, ao longo da última década, os frutos de esforços convergentes tornaram-se tangíveis: desde 2006, a realização do “Seminário Nacional de História da Historiografia”, na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP); desde 2008, a constituição de um periódico especializado no assunto (História da historiografia); em 2009, o estabelecimento da Sociedade Brasileira de Teoria e História da Historiografia (SBTHH). Antes desta cristalização em um conjunto de referências e lugares, era comum que os estudos sobre a história da prática historiográfica (ou da história da historiografia) fossem desqualificados deliberadamente entre os pares. Não era raro se ouvir que os historiadores da historiografia eram indivíduos que não tinham passado da fase do balanço bibliográfico à da elaboração da pesquisa propriamente dita. O enviesado da observação tinha pelo menos uma razão objetiva em que se sustentava. Para gerações anteriores, com a exceção de José Honório Rodrigues, as discussões historiográficas, teóricas e metodológicas eram o culminar, quando admitido, de uma carreira dedicada à prática do métier, sendo assim uma espécie de exame de consciência do historiador.  

Concomitantemente à sedimentação assinalada, processaram-se a multiplicação de temáticas e dos intercâmbios com outras disciplinas. No que tange aos temas, o século XIX, as primeiras instituições de saber histórico e as obras dos primeiros historiadores brasileiros foram objetos inicialmente privilegiados. Em que se pese a permanência do interesse pelos “ensaios de interpretação do Brasil”, é notável que a expansão universitária e os insumos recebidos pelo sistema de pós-graduação ensejaram a diversificação temática e a atenção às dimensões do ofício, anteriormente ignoradas. Se os nexos entre construção do Estado nacional e historiografia pareciam dominar os estudos acima citados, é evidente que práticas editoriais, sociabilidades e conflitos acadêmicos têm ganhado a cena. No que se refere ao diálogo com outras áreas, a Filosofia e os Estudos Literários são as parcerias disciplinares mais prováveis.  As preferências de parcerias disciplinares se devem a diversos motivos, atrelados à tradição do métier e à experiência da fração de geração que se empenhou para a sedimentação da área. Além disso, a história da historiografia se define como um espaço aberto ao exercício da interdisciplinaridade – aspecto saliente se observado o volume de estudos a respeito dos nexos entre a historiografia e teorias oriundas das ciências sociais.

Não obstante, a ênfase até aqui conferida ao caso brasileiro, é importante termos em conta que os vetores internacionais dessas mutações – ou perturbações – no campo disciplinar da história estão também estabelecidos. Publicações tais comoHistory and Theory, Rethinking History, Historein, Journal of Philosophy of History e a recém-criada International Network for Theory of History, indicam que a “idade teórica” da história veio para ficar com os impactos correlatos sobre suas formas disciplinares.